"Mato Grosso era um estado do meu país que eu não tinha visitado ainda: o chamado do afeto, de um de meus filhos e de sua família, me levou para lá. Afetos transformam em alegria qualquer viagem, e minha visita já estava atrasada. Sem tropeços maiores nesta fase em que atraso de uma hora em aeroporto é considerado vantagem, chegamos a Cuiabá, onde nos esperava um carro confortável com excelente motorista. Seguimos até Rondonópolis, a uns 400 quilômetros, o que, descobri depois, nessas paragens é distância pequena.
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E compreendi também quanto somos vítimas de descuido, desinteresse e malandragem no que diz respeito aos transportes, ao escoamento da produção ou matérias-primas (isto é, crescimento e riqueza) e, mais que tudo, à segurança da nossa vida e das pessoas amadas. Assim como andar pelas nossas ruas, trafegar por este país é risco de vida – alargar e manter estradas é questão de segurança, além de tudo.
O que para mim era matéria de jornal e televisão, e já me espantava, desta vez me tocou na carne: uma estrada asfaltada em situação inimaginavelmente ruim, filas enormes de carretas transportando riquezas numa lentidão incrível, sacrifício dos envolvidos nessa circulação de bens e de vidas.
Sem manutenção, sem duplicação, nossas estradas (essenciais porque por aqui não se acredita em ferrovia, e mudar uma pedrinha num rio para facilitar a navegação provoca a fúria de ambientalistas exagerados) simbolizam um desinteresse pelo bem-estar e pelo progresso só explicado por interesses escusos e grave incompetência, além da velha corrupção, que nesta nossa pátria não se pune, mas se recompensa.
Se o transporte de vidas e bens fosse apenas razoável, já seríamos um país muito mais rico; sobraria dinheiro para saúde, educação, moradia. Ninguém pensaria em PACs variados, delirantes ou sensatos. Cuidar dos interesses do povo seria natural e fácil.
Por que não se age assim? Por que de um lado esse abandono burro e criminoso e de outro a invenção de tantos projetos complicados que em geral não levam a nada? Enigma. Então, na hora de escrever esta coluna, me ocorreu que também nós precisaríamos de uma urgente e séria revisão sobre o tráfego de bens em nossa vida pessoal, em nosso interior: dons que o destino concede, como afetos, projetos, autoconhecimento, sentido de vida, crescimento. Investimento na alma. Caminhos travados por desinteresse, ignorância ou pouco amor à vida produzem afetos frustrados, escolhas tortas ou eternamente adiadas. Caímos nos buracos de nossas neuroses silenciosas, isolados por pontes precárias que não permitem bons relacionamentos. Vivemos em estado de desperdício: não de produtos agrícolas ou outros bens, mas desperdício de vida, de sonho, de realização, de solidariedade e alegria.
Se a vida é uma viagem com origem e destino nebulosos, a falta de visão, de interesse e aplicações emocionais e racionais nas vias de passagem determinarão a qualidade dessa aventura que é existir numa terra vasta, com paisagens surpreendentes, ameaças e armadilhas, mas também dádivas nem imaginadas. Não somos grande coisa como viajantes nesse sentido, mas podíamos melhorar. Podíamos analisar, ver, descobrir. Podíamos ser mais honestos e abertos, menos corrompidos por mediocridade e covardia. Podíamos ser mais corajosos e mais benevolentes conosco e com os outros, inventando rotas mais compensadoras para nossa dedicação.
Mas, como as autoridades que se desinteressam ou usam de maneira espúria o dinheiro que poderiam dedicar à circulação de riquezas por estas terras, nós muitas vezes botamos fora nossas melhores possibilidades.
A vida é uma terra bem mais vasta do que as vastas regiões do Brasil, onde tanto se perde sem necessidade: mas nela não dependemos de governos nem de políticos, nela cada um de nós pode consertar estradas e povoar espaços. Um terreninho precário há de virar uma extensão rica, bela, produtiva, onde se produzem e trocam criatividade, solidariedade, afeto, espiritualidade – que é noção do transcendente, respeito ao sagrado, e escuta do misterioso em que estamos, afinal, enraizados.
Mas somos muitas vezes péssimos administradores e políticos fajutos: em lugar de investir, roubamos; em lugar de cuidar, negligenciamos; em lugar de curtir, botamos fora o bem da nossa alma – se é que ela ainda não virou deserto."

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